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Papo
   Íntimo

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Sexo, imaginação e fantasia: novas perspectivas sobre a sexualidade no Brasil

 

Giulia Aguillera

 

Já dizia Rita Lee: "sexo é imaginação, fantasia". A Rainha do Rock não foi a única a falar sobre o tema na história. Aliás, desde que o mundo é mundo, existe o sexo. Até porque todos sabem que, sem ele, não haveria ninguém por aqui. Vida, prazer, sentimentos, sensações são palavras que se relacionam ao sexo. E, do outro lado: dúvidas, estereótipos, preconceitos, tabus.

Um estudo realizado pelo instituto internacional Sex Survey, entre 2021 e 2022, mapeou o comportamento sexual de mais de 80 mil pessoas de 45 países. Entre eles, estão os brasileiros, que costumam fazer sexo pela primeira vez por volta dos 18 anos e têm uma média de 10 parceiros durante a vida, segundo resultados da pesquisa, que foi realizada de forma online. 

Por outro lado, uma outra pesquisa, feita dessa vez pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em julho de 2022, em parceria com os Ministérios da Saúde e da Educação, demonstra que 28,5% dos adolescentes entre 13 e 15 anos já fazem sexo. E o mais chocante: nessa mesma faixa etária, o uso de preservativo caiu 22,3%. A camisinha não só ajuda a prevenir contra a gravidez indesejada, como também contra infecções sexualmente transmissíveis.

 

Educação sexual para quem?

 

Mais do que falar de sexo, é importante de falar de educação sexual. Na última década, a onda de conservadorismo fomentou ainda mais as discussões sobre o tema. Durante seu mandato, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) citou o tema diversas vezes, sempre envolto em controvérsias e moralismo.

Mas, afinal, o que é essa tal de educação sexual? Segundo Michelle Sampaio, sexóloga e Coordenadora do Departamento de Parafilias da Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual, "a educação sexual serve para a população - especialmente os mais jovens - entenderem quais são os riscos de uma vida sexual ativa sem informação".

A sexóloga ressalta, porém, que não são somente os adolescentes que precisam falar (e ouvir) de educação sexual, mas todos os públicos. O problema está na falta de conhecimento. Para ela, o que vemos é cada vez mais a população usando menos preservativo.

Já para Gabriella Durso Patrício, médica infectologista e produtora de conteúdo sobre HIV, PrEP, PEP, Sífilis, Hepatite B e C, educação sexual é "ter conhecimento baseado em realidade sobre o seu corpo, seus sentimentos, suas orientações e suas escolhas". A médica defende que falar sobre o tema é uma forma de autonomia, auto-responsabilidade e conhecimento.

Gabriella ainda relaciona a pauta como forma de combater grandes epidemias, como a do HIV. "O poder que a educação sexual tem em diminuir estigmas e acabar com mitos e preconceitos é real e precisa ser usado cada vez mais", opina.

 

Apagão sexual ou sexo virtual?

 

Uma pesquisa realizada por intelectuais do Instituto Karolinska, na Suécia, e da Universidade de Indiana, em 2020, mostrou que, entre aproximadamente 10 mil pessoas, 30,9% dos rapazes entre 18 a 24 anos não transaram no último ano antes da entrevista. Nesse mesmo estudo, feito em 2002, o número de jovens que estavam sem fazer sexo era de 18,9%. "Apagão sexual" foi o apelido que os pesquisadores encontraram para o fenômeno que acontece na geração Z.

Parece contraditório, não é mesmo? Ao mesmo tempo que nunca houve tanta liberdade para se falar sobre sexo, a prática está em decadência. O flerte nunca foi tão fácil: existem diversos aplicativos de namoro para diferentes públicos. Com um deslizar de dedo, surge um novo match e mais um "contatinho" para a lista. Até o Instagram facilitou o processo. Um like no aplicativo significa muito mais do que um coração colorido na tela. Há um catálogo disponível para se escolher.

O psicólogo e sexólogo William Camilo, compara o vício nas redes sociais ao de consumo de pornografia. Segundo ele, a substância liberada pelo cérebro responsável pelo prazer é a mesma nos dois casos. Dessa forma, hoje existe um universo de possibilidades de lidar com o prazer e com a fuga dos problemas - mesmo que inconscientemente -, enquanto as gerações antigas não dispunham dos mesmos mecanismos. É daí que vem aquela famosa expressão do senso comum: "não tinha televisão em casa?".

Por outro lado, William cita ainda o impacto dos padrões sociais de beleza no comportamento sexual de jovens. "Busca-se escolher mais e é uma dinâmica tão perversa que a gente está sempre buscando incessantemente, mas nada é perfeito", diz.

Ele cita, além disso, o fator autoestima. "Como está a autoestima dessa geração? Um estudo online feito pelo Panorama da Saúde Mental em parceria com a AtlasIntel e divulgado em agosto de 2023 mostrou que os jovens brasileiros com idades entre 16 e 24 anos estão entre os mais afetados por problemas de saúde mental. Sobre isso, o psicólogo sugere se questionar como a pessoa está se relacionando como a pessoa está se relacionando consigo mesma antes de engatar um namoro.

Além do fator psicológico, são diversos os aspectos que definem o comportamento sexual da sociedade, da geração e do indivíduo. Há, por exemplo, o contexto histórico, social, financeiro. O Papo Íntimo está no ar para explorar as várias nuances da sexualidade humana. Só não vale ficar com vergonha, hein? Vem papear conosco!

A complexidade relacional:

do celibato ao poliamor

Analis Torres

Explorar a complexidade relacional é como abrir um baú de opções e desvendar os inúmeros aspectos que compõem a riqueza e complexidade da experiência humana. Desde o celibato, uma prática dedicada à abstenção de relações íntimas, até o poliamor, uma forma de explorar novos relacionamentos, que envolve a possibilidade de amar e se envolver romanticamente com múltiplos parceiros simultaneamente. 

Nilton Inácio do Nacimento, psicólogo e terapeuta sexual, destaca os desafios enfrentados por aqueles que exploram diversas formas de sexualidade, incluindo o preconceito e o julgamento social. Viver fora das normas heteronormativas pode resultar em discriminação, isolamento e até violência. Ele aponta que o entendimento cultural e social da sexualidade pode influenciar as decisões e impactar o bem-estar psicológico. Expectativas não atendidas geram conflitos, levando a problemas de saúde mental, e a desconstrução da ideia de monogamia é fundamental para empoderar as pessoas.

"O principal desafio é o preconceito para com as práticas não convencionais. A compreensão de que a sexualidade é uma construção sociocultural ajuda a pessoa a se empoderar e livrar-se da culpa por viver relações afetivo-sexuais diferentes daquelas preconizadas pela grande maioria."

Celibato

Mayara Terra, tem 32 anos e é missionária da comunidade católica Shalom trilhando o caminho do celibato. Inspirada por uma experiência espiritual que teve aos 15 anos, somente após dezessete anos dentro da igreja se viu tomada pela vontade de se tornar celibatária. Uma jornada que ela diz ser reveladora, trazer liberdade interior e alegria ao viver consagrada a Deus, também destaca que essa decisão proporcionou uma vida emocional mais profunda.

“Eu fui percebendo na minha história de vida e nos traços no meu passado essa escolha, e assim que percebi que era vontade de Deus esse chamado eu entreguei a minha vida e fiz os meus votos."

Mayara compartilha que não sente pressão social e que a família entende sua escolha de vida, porém, em sua caminhada já enfrentou algumas opiniões contrarias.

“Tem pessoas que criticam, porque acham que eu poderia me casar, e sim eu poderia, mas eu escolhi fazer a vontade de Deus.”

Poliamor

Segundo um levantamento realizado pelo Google Trends, uma ferramenta do Google que mostra os mais populares termos buscados nos últimos anos, mostra que o Brasil é o terceiro país do mundo com mais interesse de busca por não-monogamia e fica atrás apenas da Austrália e do Canadá. Com um crescimento de 280%, as pesquisas pelo assunto no Brasil quadruplicaram nos últimos dois anos.

Angêlo Rafael Rodrigues, psicólogo e Neuropsicolgo de 32 anos descobriu sua inclinação não monogâmica após experiências abusivas em relacionamentos monogâmicos. O poliamor tornou-se sua escolha, oferecendo aprendizados sobre autoconhecimento, comunicação e desconstrução de conceitos tradicionais sobre relacionamentos e sexo. Ele diz enfrentar equívocos comuns sobre a não monogamia e que as pessoas só levaram a sério o seu estilo de vida depois de anos, porém, suas relações são duradouras desafiando estigmas, mostrando que a não monogamia pode ser construtiva e significativa.

“O mais comum é achar que não monogamia é sobre putaria. Eu mesmo achei que era isso no início, até entender que o buraco é muito mais embaixo. Como já estou na não monogamia por volta de 5/6 anos, as pessoas parecem de fato terem entendido como eu me relaciono.”

Assim como a família de Mayara, Angelo diz que a dele também naturaliza sua forma de viver, sua escolha pela não-monogamia.

“Entendem que não estou só me divertindo sexualmente com essas pessoas, mas veem no dia a dia da vida que estamos na vida um do outro convivendo, ajudando nas dificuldades, conversando e compartilhando nossas vidas.”

 

O especialista Nilton desafia a ideia de que somos naturalmente monogâmicos, destacando que essa construção é influenciada por diversos interesses culturais, econômicos e sociais. A monogamia é aprendida e internalizada, independente da prática individual.

"Afirmar que somos monogâmicos é uma tentativa de naturalizar uma construção sócio-histórica movida pelos mais diversos interesses."

Explorar a sexualidade revela que não existe uma abordagem única. Das escolhas de Mayara até as de Angelo, cada jornada é única. Destacando que em uma sociedade globalizada, a aceitação e compreensão dessas escolhas relacionais desempenham um papel crucial na promoção da diversidade e do respeito às diversas formas de expressão afetiva e sexual.

MARIAH PRADO

Analis Torres

Entrando no universo da sexualidade feminina, Mariah Prado

se destaca como uma figura inovadora, acumulando

experiência ao longo de sua carreira. Sua jornada única

começou lá atrás, quando ainda era estudante de Relações

Públicas e ousou vender produtos eróticos nos corredores da

faculdade.

 

No meio desse cenário intrigante, Mariah percebeu algo:

o silêncio que envolvia as mulheres quando o tema era

sexualidade. Essa percepção aguçada a levou a criar,

em 2015, um santuário digital – um grupo secreto no

Facebook exclusivo para mulheres. Um refúgio onde as

palavras não precisavam ser sussurradas, mas pronunciadas

com coragem. Ali, as mulheres podiam se despir não apenas

de suas inibições, mas também de tabus, julgamentos e

ameaças de assédio.

Essa semente inicial cresceu, transformando-se na maior

comunidade sobre sexualidade feminina no Brasil, com cerca

de 180 mil mulheres. Em 2020, Mariah elevou essa

comunidade a uma nova dimensão, uma plataforma de

streaming inovadora dedicada exclusivamente à sexualidade feminina. Uma tapeçaria de conteúdos ricos e diversos, criados em colaboração com especialistas que vão desde sexólogas a ginecologistas, psicólogas e fisioterapeutas pélvicas.

Nesta entrevista pingue-pongue, vamos adentrar o universo íntimo de Mariah Prado, não apenas como sexóloga e empreendedora, mas também como a força motriz por trás da revolução que ela desencadeou no diálogo sobre sexualidade feminina no Brasil.


 

Papo Íntimo: Como foi ao longo da sua vida sua relação com a sexualidade?

Mariah: A sexualidade sempre me atraiu muito. Desde a adolescência, era um tema que eu ficava muito interessada, intrigada. E desde lá as minhas amigas me buscavam para falar sobre, para contar experiências, tirar dúvidas, mesmo quando eu ainda não tinha iniciado a minha vida sexual eu era esse ponto de referência entre as amigas. E eu não tive uma educação conservadora, mas ao mesmo tempo nunca houve esse diálogo sobre o assunto em casa. E aí, quando eu estava no colegial, eu comecei a vender produtos eróticos, então continuou na minha vida de uma forma diferente. Quando eu fui pra faculdade, eu criei a Share Your Sex, então a sexualidade sempre se manteve. Mas eu lembro que, quando eu tinha 15 anos, eu ia com as minhas amigas na Livraria Cultura e eu falava: "vou escrever a Bíblia do sexo um dia e aí vou falar tudo sobre sexualidade", porque eu via como era uma dor para as pessoas, para as meninas da nossa idade que estavam começando a vida sexual e o tanto de dúvida que tinha, falta de conhecimento e falta de onde buscar essas informações. E eu falava na época que eu ia usar um codinome, porque imagina que eu ia usar meu rosto para falar sobre isso… eu ia pegar um pseudônimo pra poder ajudar as pessoas sem ter que me expor. É bem bacana ver que sempre teve na minha vida de uma forma muito presente, aí chegou um ponto que o que mais fazia sentido era investir nisso, focar na sexualidade, que é minha paixão. Meu propósito está muito ligado a isso.

PI: Como foi essa decisão de aparecer e se tornar a cara da marca?

Mariah: Eu já liderava a comunidade quando a SYS era só um grupo no Face, então ao longo do tempo eu fui me acostumando e, quando eu decidi de fato dar esse passo e trabalhar com a SYS, abrir uma página e tudo mais, foi na pandemia e eu via que as pessoas precisavam ter uma outra pessoa para conseguir de fato se relacionar, se identificar etc. Estrategicamente, faria muito mais sentido atrelar a minha imagem para fortalecer a SYS como marca. Eu não levo muito jeito para ser blogueira, espontânea, postar tudo nas redes sociais. Não é meu perfil, mas quando a gente tá falando de negócios, tem coisas que a gente tem que fazer e essa foi uma delas. Mas eu lembro que na época eu tinha passado por um relacionamento conturbado então passou muito pela minha cabeça como ia ser o meu futuro em relação aos meus relacionamentos amorosos… será que um cara vai bancar isso? Tinha também a preocupação com os meus pais, mas essa questão romântica foi algo que ficou reverberando.

PI: Como surgiu a ideia de criar uma comunidade para falar abertamente sobre sexualidade feminina?

Mariah: Eu vendia produtos sex shop quando entrei na faculdade e, diferente do meu grupo de amigas do colégio, eu me deparei com mulheres que não falavam abertamente sobre o assunto. Eu falei "gente, como é que eu vou vender produtos sex shop pra essas meninas se elas não sabem nem como é um clitóris, como funciona (risos), se elas não falam sobre masturbação?". Eu sentia que estava faltando esse espaço, então eu e outras mulheres que vendiam criamos um grupo.

PI: Ao abordar abertamente a sexualidade feminina, você já enfrentou críticas ou foi rotulada como vulgar por algumas pessoas?

Mariah: Já fui. Eu acho que a maioria das pessoas que pensam coisas assim não verbalizam e, honestamente, eu tenho um posicionamento que eu não erotizo a minha imagem. Eu não recebi de fora críticas sobre a minha postura, por exemplo, mas eu já senti essa questão da insegurança. E da minha mãe algumas vezes no começo, de "não acredito que paguei colégio a vida inteira para você falar de vibrador na internet". Tem essas críticas que vem de um conservadorismo dela e da família. Mas mesmo ela me apoia, então nunca sofri. 

PI: Por que você acha que a comunidade fez tanto sucesso?

Mariah: Porque sempre que a gente acha que tem algo de errado com a gente ou estamos inseguras em relação a alguma coisa, a gente normalmente tem com quem conversar, seja com a mãe, irmã, amigas etc. Mas quando diz respeito ao sexo, muitas mulheres têm sentem vergonha e acham que só acontece com elas. Na comunidade, além de você conseguir se expressar – às vezes você não consegue, mas vê um post de alguém que está passando pelo mesmo que você, e você pensa: "não sou só eu". Esse sentimento de não estar sozinha é muito reconfortante, ainda mais quando diz respeito à sexualidade, que é um assunto tão sensível. Um outro fator é o cuidado que a gente tinha em relação ao grupo, tanto eu quanto as moderadoras, em relação ao que pode o que não pode. A gente não deixa ser terra de ninguém. É óbvio que tem milhares de questões e de "B.O.s", tretas homéricas (risos), mas a gente estava sempre de olho e remediando.

PI: Como surgiu a oportunidade de transformar o Share Your Sex em um negócio?

Mariah: Eu sempre empreendi. Eu tive duas outras empresas e eu sempre divulguei meu trabalho dentro da comunidade, e tinha uma aceitação super bacana. Mas, além disso, chegou um ponto da comunidade em que era muita responsabilidade, muita gente, muita coisa acontecendo e, para entregar mais para essas mulheres em questão de segurança e qualidade de informação, precisava dar um passo a mais. Para isso, precisava de fato rentabilizar.

PI: Qual foi o momento mais gratificante para você desde que fundou a comunidade?

Mariah: Eu fui participar da gravação de um episódio – do podcast da Obvious, sabe? –, foi presencial e foi logo depois da pandemia, então os eventos estavam recomeçando. E a SYS cresceu bastante na pandemia. Quando me anunciaram, um monte de gente fez alvoroço, e não era nem por mim, era pela comunidade. Depois, algumas meninas vieram tirar foto e uma delas começou a me agradecer pela comunidade e começou a chorar. Ela falou que ela tinha assistido uma live minha na qual falamos sobre relacionamentos abusivos. Dentro desta live, ela conheceu o grupo e ela foi pra comunidade e contou a história dela e as meninas conseguiram ajudar ela a sair desse relacionamento abusivo. Várias mulheres se identificaram com a história, chamaram ela no privado ou contaram ali. Algumas meninas até mantiveram contato, prestando todo o apoio. Eu falei: "é isso". Falta muito esse acolhimento, então a gente é esse espaço pra poder se abrir.

PI: Considerando a diversidade de contextos e realidades territoriais, como tornar os programas de empoderamento em sexualidade e de saúde sexual e reprodutiva sejam acessíveis para mulheres de diferentes grupos sociais e culturais?

Mariah: Se tivesse uma resposta, a gente já teria resolvido (risos). Mas é muito complexo falando em nível nacional, e a gente mora em um país continental. Enquanto a gente está falando de orgasmos múltiplos, tem pessoas que acham que, se gozar na perna, engravida. O setor privado obviamente precisa ter iniciativas, mas o principal é governamental. A gente acabou de sair de um governo extremamente conservador. São diversas políticas públicas que têm que ser pensadas de uma forma integrada, mas entendendo diferentes níveis de conversa com cada grupo. O que funciona em São Paulo, não vai impactar no interior do Maranhão, por exemplo. É muito complexo. Acho que a gente está caminhando como sociedade, mas falta muito ainda

 

PI: Como foi a decisão de incluir conteúdo erótico saudável na plataforma?

Mariah: A questão da pornografia vem muto forte nesses últimos anos. acho que não preciso me estender muito em quais são, mas eu via essas mulheres entendendo o quão nociva a pornografia podia ser – não só para elas, mas para outras mulheres –, mas ficando órfãs de um estímulo externo ao mesmo tempo. Tem muitas pessoas que têm dificuldade de sentir prazer ou entrar no clima. Esses conteúdos podem ajudar a simplificar esse caminho. São conteúdos que não afetam negativamente o cérebro. Além dessa questão, a parte de trazer contextos que são legais e normalizar o que precisa ser normalizado, como o sexo mais lento, o uso de preservativo e de não normalizar o que não deve ser.

PI: Como empoderar meninas desde cedo, sem hipersexualizá-las, para que se tornem mulheres protagonistas de sua sexualidade?

Mariah: Tudo depende muito da faixa etária. Mas eu acho que o principal é a gente estar aberta e ouvir essas meninas e não condenar, não ridicularizar, não culpar, não fazer elas sentirem vergonha, e sim orientar. Por exemplo: um tipo de toque está acontecendo. A gente fala "olha, 'tá tudo bem, mas isso a gente só faz quando está sozinho". Orientar para a segurança dela, não impor comportamentos que vão distanciar ou fazer ela criar uma barreira em relação a sexualidade.

PI: Qual sua visão para o futuro da plataforma e da comunidade nas redes sociais e como ela pode continuar a influenciar a conversa sobre sexualidade feminina no Brasil?

Mariah: A minha visão é que a gente continue com a comunidade. Eu acho que em algum momento no futuro a gente vai desenvolver uma outra plataforma, mas o Facebook ainda é vivo e funciona. E que a gente continue desenvolvendo produtos, programas, mentorias para ajudar as mulheres a desenvolverem a sexualidade delas de forma saudável. 

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Cinderela

 

Giulia Aguillera

 

Entre muitas outras coisas, o sexo também é mercadoria. Em alguns países, como a Suécia, França, Armênia e Croácia, pagar por sexo é ilegal. Já no Brasil, a prostituição não é proibida, mas não existe nenhuma regulamentação sobre esse trabalho. Milhares de pessoas sobrevivem na rua dessa forma. Em 2012, mais de 40 milhões de pessoas no mundo se prostituíam, segundo estudo da fundação francesa Scelles.

Entre essas pessoas, está Alessandra Passarelly. Por anos, a prostituição foi a fonte de sustento de Alessandra como moradora da Grande São Paulo. Hoje, ela trabalha como agente de prevenção e ajuda a levar saúde e informação para o público das ruas.

O mini documentário a seguir conta a história de Alessandra – ou Cinderela, se preferir.

Como a escolha de ter filhos ou não pode impactar o país

Sâmylla Rocha e Vitória Reis 

 

Ter ou não filhos sempre foi uma decisão individual, mas atualmente dados evidenciam que essa escolha pode impactar a sociedade em geral. Segundo o censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgado em 2022, o Brasil teve sua taxa de crescimento anual de 0,52%, que é o seu menor índice desde 1872 quando começou a ser feito o recenseamento. 

 

O sociólogo, Luis Henrique, aponta que quatro fatores norteiam o que gera essa queda. A urbanização, a entrada da mulher no mercado de trabalho, a utilização de métodos contraceptivos e o planejamento familiar. Com a urbanização, a partir do momento em que a população brasileira passa a viver em maior parte nas cidades, o número de filhos começa a cair, isso se atrela ao fato de que nas cidades o custo de vida é maior que no campo.

 

Luís também ressalta que quando as mulheres passam a trabalhar remuneradamente, a natalidade cai, pois, ao se dedicarem ao trabalho postergam a questão da maternidade. Além dos métodos contraceptivos que também são fatores que influenciam no controle da reprodução, existem muitos casais que passaram a ter um planejamento familiar ao longo dos anos.

 

“Hoje, os casais planejam, analisam se terão filhos e quantos terão, o que está atrelado ao modo de vida urbano, os custos econômicos e emocionais de se ter um filho.”

 

Porém, além do impacto social, também pode ser visto um impacto econômico. Diego Dias, economista do banco Itaú, aborda que com a queda dessa taxa,  haverá também uma diminuição na mão de obra tanto para o mercado de trabalho, como para a produção do país. Entendendo que não teriam tantas pessoas disponíveis para fazer a economia rodar. 

 

“Impacta diretamente na oferta de mão de obra, que impacta o fluxo circular da renda. Sendo assim, retraindo a produção de um País com a redução do PIB.”

 

Segundo o professor de geografia do colégio Anglo, Sebastian Fuentes, o impacto dessa redução da taxa de fecundidade será visível diretamente no planejamento de políticas públicas, pois não teremos uma considerável renovação geracional. Ou seja, a população tende a envelhecer na média de idade. 

 

“ Uma população mais velha necessita de outra atenção. Por exemplo: maiores aposentadorias, maior atendimento médico especializado, maior quantidade de área de lazer especializado, adequação das zonas urbanas e a adequação das organizações públicas para melhor atender a população mais idosa.” 

 

Ele também aponta que a sociedade precisará readequar sua infraestrutura no que diz sobre as regiões mais elitizadas, recebendo maiores investimentos ao contrário das áreas periféricas.

 

“A redução da fecundidade, não impacta especificamente uma região urbana, embora seja notório o maior acesso ao mercado de trabalho, saúde e etc em regiões mais ricas. No entanto, com a maior demanda por serviços será generalizada, as regiões com menor acesso irão sofrer de maneira mais intensa. É o caso das áreas periféricas.”

Didática Íntima: a educação sexual vista por diferentes facetas da sexualidade

 

Kéren Morais

 

Em matéria de sexualidade a prevenção é a palavra-chave para as relações saudáveis. E falar de prevenção significa educação e conscientização. Sexo não precisa mais ser tabu, assim como saúde sexual. Justamente pensando em conscientizar e construir juntos novas narrativas de um assunto que faz parte da vida de todos nós, o Didática Íntima chega como espaço de discussão.

Educar-se integralmente em sexualidade engloba falar de uma série de conhecimentos que perpassam desde conhecimentos biológicos a aspectos psicossociais. Auto-conhecimento, identidade, sentimentos, bem-estar, consentimento, pertencimento, responsabilidade, autoproteção, são exemplos dos tópicos-pilares no debate sobre conhecimento e respeito sob o próprio corpo e sobre o corpo do outro.

Apesar de as pesquisas revelarem que a população inicia a vida sexual cada vez mais cedo, ainda há pouca informação sobre o tema. Nesse contexto é que surge a Didática Íntima. Sejam bem-vindos à série de reportagens  que esclarecerá alguns dos principais tópicos sob o guarda-chuva da educação sexual. A cada episódio, desvendaremos aspectos fundamentais para uma compreensão integral da sexualidade.

No episódio de abertura, abordamos o chemsex, ou sexo químico. Pouco discutido, mas praticado há muito tempo, o chemsex envolve o consumo de substâncias psicoativas na cena sexual, visando intensificar ou prolongar o prazer. Especialistas destacam os riscos do chemsex em relação à vulnerabilidade a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e oferecem dicas de redução de danos. Entre eles, Sidney Pimentel, médico infectologista do Centro de Referência DST/Aids de São Paulo; Bruno Branquinho, médico psiquiatra do Núcleo de Medicina Afetiva; e Fernanda Rick, médica infectologista e coordenadora da clínica de atenção à saúde sexual, a AHF Brasil.

 

Se liga nos programas porque vamos falar de assuntos polêmicos, como sífilis em bebês, o futuro da contracepção masculina, educação sexual nas escolas e o prazer na era digital. Então, pegue seu fone de ouvido e se acomode, vamos agora descomplicar o papo sobre proteção e sexualidade.

O HIV para muito além da camisinha: conheça a Mandala da Prevenção Combinada

Kéren Morais

 

Por muito tempo, no contexto da prevenção ao HIV só se ouvia falar sobre a camisinha. No entanto, ao passo que as pesquisas avançaram e as estratégias de prevenção e novas abordagens terapêuticas se desenvolveram, a Mandala da Prevenção Combinada surgiu como uma ampla alternativa de prevenir a infecção pelo vírus da aids.

Basicamente, a Mandala da Prevenção Combinada é uma representação gráfica que simboliza uma abordagem holística e integrada da prevenção, direcionada especificamente ao HIV. Nela, une-se aspectos biomédicos à aspectos sociais e comportamentais, com objetivo de uma maior compreensão do cuidado à saúde sexual. No Brasil, a prevenção combinada tornou-se política pública de saúde pelo Ministério da Saúde (MS), no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

No centro desta mandala, é possível identificar os marcos legais e outros aspectos estruturais, que concentram uma gama de possibilidades concretas e complementares. A partir do entendimento destas práticas preventivas, ela sugere educação contínua como pilar essencial para combater discriminação contra as pessoas vivendo com HIV/aids, preconceito e estigmas relacionados ao HIV, bem como aporte na tomada de decisões informadas e conscientes que garantam protagonismo, enquanto atendem diferentes contextos socioculturais.

Ao falar de prevenção combinada, a camisinha interna e externa desempenham papéis de destaque na abordagem holística. O preservativo externo, popularmente conhecido como camisinha masculina ou peniano, serve como uma barreira eficaz contra o HIV e demais Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), como também a uma gravidez não planejada. Enquanto isso, a camisinha interna - ou preservativo feminino -, oferece às mulheres e pessoas com vulva, uma outra opção de controle na prevenção.

A utilização da camisinha interna ou externa, integrada a outras estratégias, como testagem regular, aconselhamento sobre práticas seguras e educação sexual, fortalecem a educação e cuidado da saúde sexual.

As Profilaxias Pré e Pós-Exposição (PrEP e PEP), respectivamente, demonstram mais avanços importantes na resposta à aids. A PrEP envolve a administração regular da combinação de antirretrovirais por pessoas sem o HIV, reduzindo significativamente o risco de infecção. Por outro lado, a PEP idealmente indicada pelo Ministério da Saúde após casos de potencial exposição - como qualquer situação em que exista risco de contágio, tais como: violência sexual, relação sexual desprotegida, caso de rompimento de preservativo, acidente ocupacional com instrumentos perfurocortantes ou contato direto com material biológico -, consiste na tomada dos antirretrovirais até 72 horas, durante 28 dias ininterruptos. Vale destacar que quanto mais rápido o esquema de medicação for iniciado, maior a chance de eficácia em prevenir a infecção pelo HIV. 

Imunizar para hepatite A (HAV), hepatite B (HBV) e HPV; e testar-se regularmente para o HIV também é vital na prevenção. Essa é uma maneira de monitoramento da saúde sexual, permitindo uma intervenção precoce, se necessário.

Diagnosticar e tratar todas as pessoas com HIV/aids e outras ISTs  é mais uma opção estratégica preventiva eficaz, já que também o diagnóstico precoce permite intervenções rápidas, inserindo estas pessoas à TARV o quanto antes, interrompendo então o ciclo de transmissibilidade. Além disso, o tratamento do HIV reduz a carga viral a níveis tão baixos, que torna o sujeito HIV+ indetectável e intransmissível [I=I].

Na Mandala da Prevenção Combinada, o gel lubrificante também compõe a prevenção. O uso de lubrificantes pode reduzir o atrito durante a atividade sexual, consequentemente reduzindo o risco de fissuras na região vaginal ou perinatal, que podem servir como ‘porta de entrada’ para o vírus. Utilizar um lubrificante à base d’água combinado com ao preservativo também evita desconforto, proporcionando mais prazer.

A mandala contempla ainda a prevenção da transmissão vertical do HIV, que é quando o vírus pode ser passado da mãe para a criança durante a gestação, parto ou amamentação. Essa estratégia é abordada de maneira abrangente, além da terapia antirretroviral para gestantes, que reduz significativamente o risco de transmissão, inclui-se acompanhamento de pré-natal com realização de testes durante a gravidez , cuidados obstétricos personalizados, aconselhamento sobre amamentação e apoio à saúde materna. 

 

Já a Redução de Danos é uma abordagem que visa minimizar os riscos associados à infecção pelo HIV a partir do uso de substâncias como drogas injetáveis, sem exigir a abstinência total. Em vez de criminalizar, busca-se com intervenções em Redução de Danos, oferecer serviços e estratégias para proteger a saúde e bem-estar dos usuários. Distribuição de agulhas limpas, programas de troca de seringas, educação sobre práticas seguras e acesso a tratamento para dependência, são exemplos práticos desta estratégia que reconhece a realidade do uso de substâncias e visa mitigar seus impactos negativos na saúde pública.

A prevenção combinada além de oferecer uma visão global e equilibrada, visa capacitar as comunidades, especialmente as populações-chaves (travestis, transexuais, gays, outros homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo, pessoas privadas de liberdade e usuários de drogas)  para assumirem o protagonismo e tomarem o controle de sua saúde sexual e bem-estar, de acordo com o que julgarem melhor para si em seus determinados contextos coletivos e individuais.

Além disso, a Mandala da Prevenção Combinada se alinha aos objetivos 95-95-95, uma meta global estabelecida pelo Programa das Nações Unidas Sobre HIV/Aids (UNAIDS) para controle sustentável da epidemia no mundo. Esta meta vislumbra acabar com a aids enquanto problema de saúde pública global até 2030, garantindo que 95% das pessoas vivendo com o HIV conheçam seu status sorológico por meio do diagnóstico; assegurando que 95% das pessoas diagnosticadas com HIV iniciem a terapia antirretroviral antes que avancem para quadro de aids; e 95% alcancem supressão viral por meio do tratamento.

 

Conheça a Mandala da Prevenção Combinada:

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O impacto dos movimentos Redpill e Incel na sociedade

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Vitória Reis

 

O movimento Redpill ficou famoso nos últimos meses de 2023, após o “cara do Campari”, Thiago Schutz, comentar em um podcast pensamentos e costumes de homens que se identificam com o movimento que defende a masculinidade predominante na sociedade. Mas você sabe de onde se originou este termo e os impactos dele na nossa sociedade?

O termo Redpill faz referência ao filme Matrix, de 1999. Na trama, o personagem Morpheus oferece ao protagonista Neo uma escolha entre uma pílula vermelha e uma pílula azul. Tomar a pílula vermelha representa a busca da verdade - mesmo que seja desconfortável - enquanto tomar a pílula azul significa permanecer na ignorância e continuar com uma visão ilusória da realidade.

O sociólogo Alexandre Viola, formado pela USP, comenta que as ideias que esses movimentos defendem já existem há um tempo, mas circulavam em grupos mais restritos. Com a chegada das redes sociais, a formação de grupos cada vez maiores e a propagação dessas ideias para um público mais amplo, em especial, como jovens que podem estar passando por momentos de insegurança e imaturidade, foi facilitada.

“As redes sociais têm como objetivo manter os usuários o maior tempo possível em suas plataformas, o que as incentiva a promover conteúdos cada vez mais extremados, uma vez que esses ideais têm maior propensão a se espalhar rapidamente”, explica.

Alexandre ressalta que esse tipo de grupo representa um retrocesso nas conquistas dos movimentos feministas ao longo do último século. 

“Esse tipo de pensamento, como o Redpill, promove o sexismo e a misoginia, e acaba por alimentar a desigualdade de gênero e a marginalização das mulheres.”

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2022, só no Brasil, nos últimos dois anos, mais de 120 mil mulheres registraram casos de abusos psicológicos e perseguição de seus parceiros, além de stalkers em suas redes sociais. O abuso psicológico não envolve agressão física, mas se concentra em estratégias de manipulação, intimidação e controle. Edileuza da Silva, mora em Santo André e trabalhou como caixa de supermercado, até 2015. Ano do falecimento de seu único filho. Atualmente, após a separação, Edileuza trabalha no cuidado de idosos, tem 56 anos e foi casada por mais de 30. Ela comenta que tomou coragem e, mesmo sendo dependente financeiramente, se separou recentemente após perceber que o que vivia em casa se tratava de abusos psicológicos. Edileuza conta como se deu conta de que estava sofrendo violência dentro de casa.

“Descobri assistindo o programa da Christina Rocha, no SBT, onde o marido de uma das convidadas do programa a tratou como lixo em frente às câmeras, com palavras de desprezo e arrogância. Foi quando a psicóloga que estava no programa a fez entender que ela estava passando por uma agressão verbal, que também é crime. Só assim me dei conta que eu também estava passando pela mesma situação".

 

A cuidadora explica que nunca foi agredida fisicamente, mas que os abusos psicológicos ainda fazem parte do seu cotidiano e têm impacto na sua vida social, mas que a decisão de se separar tornou seus dias melhores.

 

“Esse relacionamento me causou estresse, ansiedade, síndrome do pânico, medo, isolamento social, tristeza, mau-humor e baixa autoestima, porém, mesmo passando por tudo isso sinto muito orgulho de mim. Hoje eu aprendi a me valorizar, me amar e me respeitar em primeiro lugar."

Incels

O termo "Incel" vem do que é conhecido em inglês como involuntarily celibate e, em português, significa "celibato involuntário". A comunidade incels é um grupo de homens, em sua maioria jovens e heterossexuais, que se autodenominam como incapazes de encontrar parceiros românticos ou sexuais. Porém, é válido ressaltar que a subcultura incel ganhou notoriedade por seus ideais misóginos e violentos em relação às mulheres. Alguns indivíduos dentro desse grupo promovem discursos de ódio e até mesmo incitam a violência contra as mulheres. 

Segundo o Anuário do Fórum Brasileiro da Segurança Pública, houve um aumento no número de tentativas de homicídio contra a mulher, com mais de 7.600 casos registrados em 2022 - Este índice representa um aumento de 9,3% comparado a 2021. O psicólogo Heverton Agnelli, especialista em violência contra mulher, comenta que os riscos ao se relacionar com homens que têm essa linha de pensamento e comportamento pode ser tanto tóxica como abusiva.

“Essa relação pode adoecer a mulher. Ela não se enxerga mais como pessoa dentro de uma relação abusiva. Além disso, se trata de uma relação de poder. Onde se extrai algum ganho por parte do parceiro, seja com a dominação financeira, territorial, familiar, entre outros...”

Além dos riscos de uma mulher se relacionar com redpills e incels, há também uma alerta aos rapazes que entram nesses movimentos. Ainda que seja um grupo recente, Heverton ressalta que são imensuráveis os transtornos que podem ser desenvolvidos por causa desse tipo de comportamento. “´É o tipo de movimento que aumenta e amplia a opressão de gênero, causa problemas emocionais gravíssimos, cognitivos, comportamentais e baixa autoestima.

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O QUE VOCÊ SABE SOBRE CRIMES SEXUAIS?

Giulia Aguillera

 

Falar de sexo é também falar sobre limites físicos e psicológicos. E isso vai muito além da máxima de que "não é não". Nesse caso, nem sempre o "não" é dito. Uma expressão de desconforto pode ser um não, uma mudança de comportamento pode ser um não e, no geral, tudo que não for um explícito "SIM" pode ser um não.

 

Um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em março de 2023 estima que, a cada minuto, duas mulheres são vítimas de estupro no Brasil. O estupro é só o primeiro em uma lista de crimes sexuais segundo a lei.

 

Você sabe identificar o que é verdade e o que é mentira nesse quiz sobre assédio? Todas as respostas são da advogada Tuane Tarques, atuante com perspectiva de gênero e pós-graduanda em direito de família e sucessão e direito antidiscriminatório.

COMO DENUNCIAR?

COMO DENUNCIAR?

  • Um crime sexual pode ser denunciado em qualquer delegacia, mas o mais indicado são as Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs)

  • Em caso de urgência, ligue no 190

  • Disque-denúncia 180 (Central de Atendimento à Mulher)

  • Em São Paulo: compareça à Casa da Mulher Brasileira, que funciona 24 horas todos os dias

  • Formulário online na Ouvidoria das Mulheres - denúncia pode ser identificada, sigilosa ou anônima

  • Projetos sociais que acolhem vítimas de violência sexual, como o MeTooBrasil

Epidemia de violência: Brasil bate recorde em casos de violência contra a mulher; mulheres negras são as maiores vítimas de estupro

Kéren Morais

 

A violência contra a mulher é um fenômeno complexo e multifacetado que no Brasil, segue fazendo milhares de vítimas todos os anos e sendo um grave problema de segurança pública, mas também de saúde pública, considerando que para além da integridade física, este tipo de violação também abrange aspectos psicológicos e emocionais.

 

Dados do mais recente anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam que no último ano (2022) 24.382 casos de violência psicológica contra a mulher foram registrados no país, em comparação com o ano anterior, que registrou 10.922 casos. O número de denúncias aumentou em 121,8% no intervalo de tempo entre 2021 e 2022.

 

Todos os estados retratados tiveram aumento de denúncias de 2021 para 2022. Com exceção apenas de Roraima, o número de violência psicológica contra a população feminina em todos os estados brasileiros cresceu mais que o dobro em relação ao ano anterior.

 

Os estados que tiveram os maiores índices foram: Roraima (4.494); Rio Grande do Sul (2.960); Rio de Janeiro (1.992); Santa Catarina (1.982); Pará (1.919); Goiás (1.773); Minas Gerais (1.651) e Paraná (1.550), respectivamente.

 

No país, o estado com número mais significativo de violência psicológica foi Roraima, com 4.294 casos registrados, e logo em seguida o Rio Grande do Sul, com 2.960 notificações. O estado com menor número de denúncias foi o Paraná, alcançando 1.550 ocorrências.

 

O mesmo levantamento sistematiza também dados de violência doméstica. De acordo com o anuário, as maiores elevações nos crimes de violência doméstica ocorreram na região sul do país. Santa Catarina foi o estado com maior acréscimo entre 2021 e 2022; o número quase triplicou, com aumento em mais de 244%.

 

Com relação aos índices de estupro, São Paulo (SP) lidera as taxas com 27,7%. Na sequência aparece Santa Catarina (SC) com 15,8%; Rio de Janeiro (RJ) com 15,5%; Paraná 15%; e Minas Gerais 13,6%. Os estados permaneceram os mesmos nos anos de 2021 e 2022, embora com [pequenas] variações percentuais.

 

Tratando-se de importunação sexual, o crime é caracterizado por abordagens sexuais invasivas, gestos obscenos ou toques indesejados em locais públicos, criando um ambiente desconfortável para a vítima. No Brasil, a prática tornou-se crime a partir da Lei de nº 13.718/2018.

 

O relatório emitido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública destaca os estados brasileiros com maiores acréscimos de 2021 para 2022, são eles: Rio Grande do Norte (RN); Espírito Santo (ES); Acre (AC); e Bahia (BA), com 35%, 51%, 63%, e 67%, respectivamente.

 

Segundo especialistas, a interseccionalidade de desigualdades sociais consegue deixar a situação ainda pior; isto pois, quanto ao perfil das vítimas, mulheres negras são as principais vítimas de estupro no Brasil. Em 2022, 88,7% eram identificadas como do sexo feminino e 11,3% como do sexo masculino; e enquanto o número de estupros contra pessoas brancas têm queda, mesmo que por vezes tímida, contra pessoas pretas e pardas ele anda no sentido inverso, ou seja, aumenta, com salto de 52,2% para 56,8% de de 2021 para 2022.

 

Quando traçado o perfil do abusador, o anuário revela que em 64,4% dos casos em que a vítima tem até 13 anos, o abusador é um familiar. Mesmo entre as vítimas com mais de 14 anos, em 37,9% dos casos o abusador também é algum membro da família.

 

Em entrevista cedida, para qualificar os dados, Thais Carvalho, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explicou como o levantamento é feito e quais são os seus critérios. “A gente trabalha pedindo [aos estados] base de microdados; dessa forma, conseguimos extrair informações segundo critérios de raça/cor, idade, e perfil do agressor.”

 

De acordo com a pesquisadora, o maior desafio na articulação da pesquisa é lidar com a peculiaridade territorial de cada estado. “Precisamos sempre estar atentos se o que a gente está contabilizando em um estado vai valer para outro [...] cada um tem um contexto muito específico.”

 

Impactos em saúde

 

Já a psicóloga especializada em crimes de gênero, Lynn Chemas, esclarece o contexto social, os impactos e agravos dos diferentes tipos de violações na saúde mental das vítimas. Segundo Lynn, há uma ‘cultura do estupro’ que refere-se a um conjunto de crenças, atitudes e normas sociais que minimizam ou desculpabilizam a violência sexual, perpetuando um ambiente que propicia a ocorrência desses crimes. Essa cultura emerge quando estereótipos de gênero, objetificação sexual de corpos femininos e mitos sobre a violência sexual são normalizados na sociedade. 

 

Conforme pontua a especialista, isto cria uma atmosfera de insegurança que muitas vezes culpa a vítima, desacredita seus relatos e impede uma resposta eficaz por parte das instituições. “Sendo mulher, a gente vive desde a infância uma noção de violência sexual que os homens não vivem [...] desde sempre a gente vive nesse contexto de preocupação”, afirma.

 

“Mulheres vão sempre ter medo que de certa forma possam ser objetos de violência sexual na mão dos homens”, complementa.

 

A especialista ainda chama atenção para outro fato: o abuso consentido dentro das relações. “As mulheres têm a vida toda marcada pela percepção do que é um abuso sexual [...] a gente já parte do princípio na lógica clínica que algo do sexual pode estar indo para o corpo em forma de sintoma. Pode ser qualquer tipo de sintoma, uma cistite recorrente, uma dor nas costas, uma fibromialgia, uma enxaqueca, uma gastrite. Qualquer coisa que esteja relacionada a algo do emocional pode vir desse lugar de uma violência sexual”, explica a psicóloga ao alertar sobre os padrões de violência.

 

Ela reitera que esta cultura além de naturalizar a ideia de que mulheres são projetadas para servir e satisfazer os homens, sobretudo sexualmente, a mesma parte de uma lógica misógina e patriarcal que também revitimiza e cria um julgamento social que impede muitas mulheres de buscarem ajuda, denunciando que, de fato, foram estupradas.

 

“Falando de crimes sexuais, há estudos internacionais que vão indicar que anos de isolamento social devido a pandemia de covid-19, este período acabou acarretando uma subnotificação, então há menos notificações de pessoas sendo vítimas de crimes sexuais do que de fato há [...] e no Brasil, a gente tá falando de uma violência sexual muito infrafamiliar e a maior parte trata-se de estupro de vulnerável, contra são crianças de 3 a 14 anos”.

 

Consequências legais

 

Já a advogada Tuane Tarques, também especializada em crimes de gênero, reforça que além das vítimas terem medo de denunciar a violência, muitas vezes são vitimizadas por locais e profissionais que deveriam prestar o tipo de acolhida necessária. “Muitas têm medo de represálias por parte do agressor, de serem julgadas pela sociedade ou de não serem acreditadas”. 

 

Tuane contextualiza que o estigma associado ao abuso sexual pode ser cruel e esmagador, gerando consequências diretas na condição de saúde destas mulheres; um deles é o trauma emocional. “O trauma resultante do abuso sexual pode dificultar inclusive da vítima se relacionar afetivamente com outras pessoas”, destaca.

 

“Algumas sobreviventes não têm recebido apoio de amigos, familiares ou instituições ao denunciar, e essa falta de apoio pode tornar o processo ainda mais solitário e aterrorizante.”

 

Segundo a especialista o problema ainda não para por aí, a ausência de provas físicas e sólidas do crime, em muitos casos, também é fator preponderante que dificulta o andamento da investigação e alimenta o ciclo da violência.

 

Entretanto, apesar de todos os desafios, as entrevistadas enfatizam que denunciar é um passo não somente importante, mas crucial para pôr fim ao ciclo de violência, seja ela qual for, e para garantir a responsabilização judicial do agressor.

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Rompendo e ressignificando o silêncio: entre sombras e palavras seladas, Vanessa Paz corajosamente divide sobre o estupro que marcou sua história

Kéren Morais

 

Nascida e criada no Rio de Janeiro, a história da sagitariana Vanessa Paz, 27, emerge como uma das milhares de outras histórias de meninas e mulheres que tiveram sua integridade física violada sexualmente. 

 

Disposta a quebrar o silêncio por si e pelas outras, Vanessa conta que decidiu compartilhar sua história, tornando-se uma voz contra a violência sexual. “Já tive muita dificuldade de falar sobre, mas hoje em dia, mesmo com desconforto, sinto necessidade de falar por mim e por outras mulheres também, esse assunto virou o meu ponto de força”, compartilha, revelando a transformação de sua dor em uma missão de potência e empoderamento.

 

Seu relato corajoso de três anos em um relacionamento marcado por abusos, detalha o sofrimento que enfrentou. “Ele foi meu primeiro homem. Um homem branco, bem renomado e muito reconhecido na área da saúde e educação física. Ele era mais velho que a mim e dominador, em todos os aspectos! Nas primeiras vezes que nos relacionamos sexualmente, sempre foi respeitoso ou fingiu ser. Ficamos juntos por quase três anos e os abusos sexuais aconteceram no final do "relacionamento" [...]. No momento [da primeira agressão] eu estava na casa dele e não muito no clima, mas acabei cedendo por manipulação e por não querer gerar um atrito. Em um determinado momento, pedi para parar, tentando tirá-lo de cima e de dentro de mim, mas ele era o meu triplo em tamanho, então me imobilizou na cama, me segurando pelos punhos e continuou penetrando.”

 

“Lembro de dizer que estava machucando e ele me disse "foda-se, você é minha". Eu chorava e gritava, ele tentava me beijar e eu virava o rosto, mas ele só parou depois de ter gozado. Foi tão violento que dilacerou [a minha vagina] e eu precisei ir na ginecologista tomar os devidos cuidados. Demorei a entender o que aconteceu e a aceitar também”.

 

A experiência extremamente dolorosa e traumática de Vanessa, revela a brutalidade da violência sexual que sofreu. A desumanidade do agressor que ignorou completamente o sofrimento da vítima, se soma às perversas estatísticas que revelam como os homens culturalmente são educados a desrespeitar corpos femininos, desvalidando também seus sonhos, seus prazeres, suas integridades e subjetividades, já que o mais recente levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que a cada 8 minutos, um menina ou mulher é estuprada no Brasil.

 

“Geralmente eles nos culpam ou fazem com que a gente se sinta culpada, dão a entender que fizemos por merecer ou que não nos damos o devido respeito. A sociedade entende o corpo feminino como propriedade do patriarcado, é como se o nosso corpo não fosse, de fato, nosso. Se você for mulher preta então, você só serve para o sexo [...] é sempre o mesmo roteiro.”

 

A violência brutal que a carioca foi vítima, também lança luz sobre como o estado é falho em garantir a segurança de suas jovens e meninas, e a necessidade urgente de enfrentamento da violência sexual contra, principalmente, mulheres negras, que são mais da metade [56,8%] das vítimas deste crime, no país.

 

Para Vanessa, o cenário é resultado da hipersexualização e dos estigmas de objetificação criados sobre as mulheres negras, que constituem manifestações diretas de uma sociedade racistamente estruturada. “Nós mulheres negras somos vistas como descartáveis e indignas de amor, afeto, validação, defesa ou carinho. Nossa palavra quase nunca tem valor e nossa vida não vale nada.”

 

A violência, que se manifestou no final do relacionamento, deixou marcas profundas, mas ao se vulnerabilizar por si e por muitas outras mulheres, sobretudo pelas mulheres pretas, Vanessa oferece o acolhimento que por muitos anos lhe faltou.

 

Apesar de ter conseguido ressignificar parte de sua experiência, Vanessa reconhece que o processo de recuperação é uma jornada complexa e contínua. “Eu acho que a gente nunca se cura 100% depois de ser violentada, o que a gente aprende é a lidar com as lembranças, com o trauma e a dor. Isso requer muito tempo, terapia e paciência.”

 

Vanessa Paz teve que encarar ainda o peso do estigma e do medo ao decidir não denunciar. “Não contei pra ninguém e guardei pra mim durante anos.”

 

A decisão de hoje compartilhar sua história trouxe consigo uma mistura de ansiedade, pânico e desafios emocionais, mas também a força de romper com o silêncio que, segundo ela, lhe adoecia.

 

Vanessa Paz faz questão de destacar como a terapia foi importante no seu processo de ressignificação. Ela reconhece que ter tido acompanhamento terapêutico com uma psicóloga preta foi fundamental para encontrar apoio e compreensão, pois este vínculo propiciou uma conexão significativa a partir da identificação cultural.

 

Atualmente, na internet - em seu perfil no Instagram @pretaboainfluencer -, a jovem acolhe outras pessoas que passaram por situações similares, divide suas opiniões e experiências individuais, além de disseminar informações seguras sobre afeto, saúde, consentimento e autoconhecimento.

 

Com olhos voltados para o futuro, Vanessa compartilha que cultiva a esperança em uma sociedade menos machista, igualitária, diversa e inclusiva, “onde todas as mulheres sejam acreditadas, acolhidas, respeitadas e defendidas, independentemente de suas circunstâncias.” Seu apelo final é claro: “Acho que o primeiro passo é entender que a culpa não é nossa e nada justifica [...] a gente só consegue seguir quando entendemos que o nosso comportamento não deve ser uma justificativa para violência.”

 

Vanessa enxerga a educação sexual, a psicoterapia e a fisioterapia pélvica apoios fundamentais, mas destaca que a denúncia é inegociável para romper com o ciclo de abuso, garantindo a responsabilização do agressor, e para a construção de um futuro mais seguro para todas as mulheres.

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SOBRE NÓS 

SOBRE NÓS 

Desde a infância, meu interesse pela comunicação guiou minha jornada. Acho importante me dedicar ao tema da sexualidade e proporcionar informações valiosas, promovendo diálogos abertos sobre esse assunto vital, ainda considerado tabu.

Analis Torres

Jornalista guiada pelo desejo de comunicar e contar boas histórias e também mãe de planta nas horas vagas. O que me move é o compromisso com a verdade e a defesa dos direitos humanos. Isso inclui o acesso à informação e à saúde sexual.

Giulia Aguillera

Articulada, expansiva, determinada e destemida. Sou apaixonada por pessoas, pela comunicação, arte e cultura negra. Indignada por natureza, me ancoro na minha ancestralidade. Meu propósito maior de vida é não passar por esse plano sem contribuir efetivamente na vida das mulheres negras, inclusive nas questões sobre prazer, direito à saúde sexual e reprodutiva.

Kéren Morais 

A comunicação sempre esteve na minha vida, e ao entrar na faculdade de jornalismo e aprender mais sobre esse universo me vejo cada vez mais nesse lugar de alicerce entre o ouvinte e a história, como foi o caso desta plataforma, aprender mais e poder desmistificar informações que o público precisa sobre o sexo é algo essencial.

Sâmylla Rocha

A comunicação sempre fez parte da minha vida. Sempre gostei muito de me comunicar e enxergar através dela as oportunidades e relações que poderiam ser criadas. Fazer parte dessa plataforma agregou na minha vida como pessoa. Observar a grandiosidade do sexo e suas vertentes fizeram com que esse trabalho fosse muito divertido e gratificante.

Vitória Reis

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